A glândula tireoide consiste em dois lobos laterais conectados por um istmo relativamente fino, localizado
abaixo e anteriormente à laringe. Microscopicamente, os grupamentos epiteliais predominantes na glândula
tireoide são os folículos tireoideanos, estruturas glandulares com coloide em seu interior. Presença de
estroma conjuntivo e células parafoliculares (células C, produtoras de calcitonina, intersticiais).
Embriologia: a glândula se desenvolve a partir de uma invaginação do epitélio faríngeo em desenvolvimento
que desce do forame cego da base da língua para a sua posição normal no pescoço anterior.
Hipertireoidismo: estádio hipermetabólico associado à elevação dos hormônios tireoideos (T3/T4) em
doenças primárias da glândula ou secundárias a processo sistêmico (adenoma de hipófise, Struma ovarii).
❖Etiologia: hiperplasia difusa (doença de Graves), bócio multinodular, adenoma, carcinoma, drogas,
tireoidite (elevação transitória).
❖Manifestações clínicas: pele quente e rosada, intolerância ao calor, sudorese, emagrecimento,
taquicardia, palpitações, arritmias, tremor, ansiedade, insônia, hiperatividade simpática, osteoporose
(aumento da reabsorção óssea).
Hipotireoidismo: alteração do eixo hipotálamo-hipófise-tireoide, com lentificação metabólica associada à
diminuição de T4 e T3. TRH e TSH variáveis.
❖Etiologia: autoimune (tireoidite de Hashimoto), pós-ablação cirúrgica, drogas (lítio), deficiência de iodo,
anormalidade genéticas, deficiências centrais (TRH, TSH).
❖Manifestações clínicas:
- Cretinismo: precoce, no primeiro ano de vida ou no início da infância (associação à deficiência
materna e a erros inatos do metabolismo). Alterações no desenvolvimento do SNC (mais grave em
exposições mais precoces) e no músculo esquelético. Baixa estatura, retardo mental severo, face
típica de feições grosseiras, protrusão da língua, hérnia umbilical.
- Mixedema: em crianças e adultos. Evolução insidiosa. Letargia, depressão, fadiga, apatia, aumento
de peso, intolerância ao frio, dispneia, palidez, pele fria, constipação e edema (líquido rico em
mucopolissacarídeos).
Condições clínicas: bócio, doença de Graves, tireoidites, neoplasias.
1. Bócio: uma das doenças mais comuns da tireoide, antigamente endêmica pela deficiência de iodo
(prejuízo da síntese hormonal de hormônios tireoideanos, estimulando a hipófise a produzir TSH, com
aumento compensatório do tamanho da glândula). Hiperplasia e hipertrofia dos folículos tireoideanos. Muitas
vezes, o aumento da glândula mantém o indivíduo eutireoideo. Forma difusa e multinodular.
A) Bócio difuso (coloide): envolve toda a glândula de forma uniforme. Mais comum na
deficiência de iodo. Formas esporádicas são mais raras, associadas a mutações genéticas.
Pode estar associado à ingestão de substâncias que diminuam a síntese hormonal.
❖Morfologia: fase hiperplásica (hiperplasia difusa dos folículos) seguida de fase
involutiva após início da reposição de iodo (involução epitelial, com predomínio de
coloide).
❖Clinica: eutireoidismo, T3 e T4 normais, TSH levemente aumentado ou normal. Efeito
compressivo incomum.

B) Bócio multinodular: episódios recorrentes de hiperplasia e involução, com nódulos em diferentes
estágios. Resulta de resposta hormonal variável do epitélio folicular. Pode ser originado a partir de evolução
de bócio difuso de longa data, tendo a mesma etiologia que este.
❖Morfologia: aumento assimétrico e volumoso da tireoide (2
kg). Macroscopicamente, formato irregular, com nódulos de
tamanhos variados. Mais áreas de fibrose, calcificação
degenerativa e alteração distrófica. Coloração amarronzada,
brilhante, com áreas de hemorragia, cistos e calcificações.
- Presença de macrófagos perifoliculares fagocitando coloide;
macrofoliculos e folículos menores associados.
❖Clinica: efeitos compressivos (traqueia, esôfago -> dispneia, disfagia). Pode ser mergulhante ou
intratorácico (atrás do esterno). Maioria dos pacientes eutireoideos. Hiperfuncionamento (e
hipertireoidismo) não é comum. Pode simular ou mascarar neoplasia (evolução em menos de 5% dos
casos de longa duração).
- A manifestação de tireotoxicose secundária em uma minoria dos pacientes ocorre devido ao
desenvolvimento de nódulos autônomos, que produzem hormônio tireoideano independente de estímulo
de TSH (bócio multinodular tóxico ou síndrome de Plummer).
2. Doença de Graves: causa endógena mais comum de hipertireoidismo. Doença autoimune. Prevalência de
7 mulheres : 1 homem. Suscetibilidade genética (HLA-DR3, CTLA4, PTPN22).
❖Tríade: hipertireoidismo, oftalmopatia e mixedema pré-tibial.
OBS: alterações oculares podem ser encontradas em qualquer
forma de hipertireoidismo (olhar amplo, arregalado e atraso
palpebral), por hiperestimulação simpática do elevador da
pálpebra superior. A oftalmopatia, com exoftalmia, entretanto, é
restrita à doença de Graves.
❖Fisiopatologia: autoanticorpos para receptores de TSH ->
estimulação e aumento da tireoide, infiltração linfocítica (mediada por células T), hipertireoidismo
(elevação de tiroxina).
- Autoanticorpos: TSI (imunoglobulina estimuladora da tireoide; IgG que mimetiza ação de TSH no
receptor), TGI (imunoglobulinas estimuladoras do crescimento da tireoide; ação nos receptores de
TSH), TBII (imunoglobulinas inibidores da ligação de TSH; responsável por episódios de
hipotireoidismo).
- Oftalmopatia: infiltração retro-orbitária linfocítica, com edema inflamatório de músculos
extraoculares, acúmulo de proteínas de matriz extracelular (glicosaminas, ácido hialurônico),
infiltração adiposa.
- Mixedema pré-tibial: infiltração e edema, acúmulo de proteínas de MEC e lipídios no subcutâneo.
❖Morfologia: aumento leve e difuso da glândula; parênquima de aspecto usual, amarronzado e macio.
Hiperplasia e hipertrofia epitelial. Ausência de formação de nódulos. Folículos menores e irregulares,
com infiltrado inflamatório linfoplasmocitário ao redor. Formação de folículos linfoides. Oftalmo e
dermatopatia com edema, infiltração linfocítica e fibrose.
❖Clinica: aumento de volume cervical, hipertireoidismo, exoftalmia, edema pré-tibial (mais raro, com
nódulos ou aspecto de casca de laranja) e elevação dos hormônios T3/T4 com diminuição de TSH.
3. Tireoidites: processos inflamatórios ou infecciosos (mais raros, com poucas sequelas), de forma aguda
(clinica exuberante) ou crônica (insidiosa, com pouca inflamação), que envolvem a glândula tireoide. A
etiologia mais comum são doenças autoimunes.
A) Tireoidite de Hashimoto (tireoidite linfocítica crônica): maior causa de hipotireoidismo em áreas de
iodo suficiente. Tireoidite linfocítica crônica. Predisposição familiar (30-60% em gêmeos). 15 mulheres : 1
homem. Mais comum entre 45-65 anos.

eDestruição do parênquima tireoideano por autoanticorpos, substituindo o tecido por fibrose, células
mononucleares e agregados linfoides.
❖Fisiopatologia: semelhante à doença de Graves, com ruptura da autotolerância aos antígenos
tireoideanos e sensibilização de linfócitos T helper (LT citotóxicos CD8 - morte celular; LTh1 - interferongama,
com ativação de macrófagos; LTh2 - IL4/5, linfócitos B e autoanticorpos). Leva à toxicidade e
destruição das células.
- Autoanticorpos incluem antitireoglobulina e antiperoxidase tireoideana, acompanhados por
citotoxicidade anticorpo-dependente mediada por células.
- Concordância em até 40% de gêmeos monozigóticos sugere significativo componente genético (ex:
gene CTLA4).
❖Morfologia: inicialmente, leva a um aumento difuso da glândula (parênquima mais firme, pardoamarelado).
Microscopicamente, infiltrado inflamatório crônico mononuclear, folículos linfoides, centros
germinativos, destruição glandular e atrofia, podendo haver fibrose.
- Células de Hurthle (oxifílicas): células epiteliais diferenciadas pela presença de abundante citoplasma
eosinofílico e glandular, revestindo os folículos tireoideanos atróficos. Constituem resposta de hiperplasia
e metaplasia do epitélio folicular cuboidal à lesão continuada. Oncocíticas, de grande tamanho.
❖Clinica: mulheres de meia-idade, com hipotireoidismo e aumento difuso da tireoide. Eventual
tireotoxicose transitória por destruição dos folículos. Maior risco de doenças autoimunes (DM, LES) e de
desenvolvimento de linfomas Não-Hodgkin de células B.
B) Tireoidite subaguda granulomatosa (De Quervain): mulheres de 30-50 anos, pós-infecção viral
(adenovírus, caxumba, sarampo). Através de linfócitos T citotóxicos, leva à destruição do parênquima folicular.
Efeito transitório.
❖Morfologia: aumento leve da glândula, de cor pardo-amarelada e consistência rígida. Formação de
abscessos após destruição folicular, com extravasamento de coloide e infiltrado polimorfonuclear
substituído gradativamente por linfoplasmocitário, células multinucleadas (granulomatosas) e fibrose.
❖Clinica: tireoidite dolorosa. Quadro de dor cervical anterior, nos ouvidos e em garganta, disfagia, febre e
mal estar. Aumento variável do volume glandular. Hipertireoidismo por 2-6 semanas seguido de
hipotireoidismo por 2-8 semanas. Condição autolimitada.
C) Tireoidite subaguda linfocítica: silenciosa, indolor. Aumento de volume cervical leve ou hipertireoidismo
leve. Mais comum em mulheres adultas, pós-parto. Autolimitada. Patogênese desconhecida.
❖Morfologia: aumento de volume, infiltrado crônico linfocitário, centros germinativos hiperplásicos e
destruição folicular.
❖Clinica: hipertireoidismo de duração de 2-8 semanas. Risco pós-parto, podendo recorrer em futuras
gestações.
D) Tireoidite de Riedel: fibrosante, infiltrativa. Forma mais rara de tireoidite, com consistência endurecida.
Pode causar obstrução da traqueia e simular neoplasia. Predomínio em mulheres entre 30-50 anos. Etiologia
desconhecida.
❖Aumento expressivo de volume cervical, podendo envolver estruturas adjacentes. Massa fixa, simulando
carcinoma, englobando laringe e traqueia. Fibrose extensa.
4. Neoplasias: clínica de nódulo tireoideo (representam 1% dos nódulos solitários da
glândula). Mais frequente em mulheres (4:1). Maioria dos nódulos é benigna (10:1)
❖Achados que sugerem malignidade: nódulo único, em paciente jovem, homem,
com história de radiação na cabeça e pescoço. Nódulo hipocaptante/frio.
❖Abordagem: todos devem ser examinados. Exame citológico através de punção
aspirativa de agulha fina (PAAF) e exame histológico.
4.1. Adenoma folicular: nódulo localizado, não aderido. Tumor benigno mais frequente.
Maioria não funcional, mas alguns podem ser tóxicos. Patogenia desconhecida.
❖Morfologia: nódulo encapsulado, bem delimitado, pardo-amarelado, de 3-4 cm.
Células uniformes, com coloide e padrão folicular distinto do parênquima adjacente.
Presença de cápsula intacta, definida (não determinada pela citologia; fundamental


na diferenciação de carcinoma folicular). Mitoses incomuns. Células de Hurthle podem ocorrer. Possíveis
áreas de hemorragia, calcificação e cistificação.
❖Clínica: nódulo unilateral, indolor. Maioria nódulo frio. Todos requerem estudo histológico. Avaliação da
integridade da cápsula (inclusão total da peça). Bom prognóstico, geralmente sem recorrência. Em geral,
não são lesões precursoras de carcinomas (apenas em um pequeno subgrupo de carcinomas
foliculares).
4.2. Carcinomas: 1.5% das neoplasias malignas. Mais comum em mulheres adultas, sendo a maioria
derivada de epitélio folicular (exceção -> carcinoma medular = originado nas células C, parafoliculares).
❖Tipos: papilar (80%), folicular (15%), medular (5%), anaplásico (menos de 5%).
❖Patogenia: grande maioria dos casos esporádicos. Formas familiares de carcinoma medular (associação
à neoplasia endócrina múltipla-2). Fatores genéticos atuam em duas vias oncogênicas, a via da proteína
quinase ativada por mitógeno (MAP) e a via da fosfatidilinositol-quinase. Mutações em RAS (carcinoma
folicular, RET e BRAF (via da MAP quinase em carcinoma papilífero), TP53 (carcinoma anaplásico). Contribuição de fatores
ambientais (radiação ionizante nas primeiras duas décadas de vida).
A) Carcinoma papilar: pico de incidência entre 20-40 anos. Nódulos únicos ou multifocais, circunscritos ou
infiltrantes, podendo ter áreas císticas e de fibrose.
❖Microscopia: arquitetura papilífera, epitélio cuboide revestindo estroma fibrovascular.
Núcleos de células claros, de aspecto vazio, fendidos (em grãos de café), com
pseudoinclusões nucleares (invaginação de citoplasma para dentro do núcleo, refletindo
irregularidade). Presença de corpos psamomatosos (concreção calcária), eixos
fibrovasculares densos e focos de permeação linfática.
❖Clinica: maioria nódulo assintomático, frio. Metástases linfonodais comuns ao
diagnóstico (não alteram o prognóstico). Sobrevida de 95% em dez anos. Pior
prognóstico em pacientes > 40 anos e com metástases à distância.
B) Carcinoma folicular: segundo carcinoma mais comum de tireoide. Mais comum em
mulheres entre 50-60 anos, em áreas iodo deficientes.
❖Morfologia: nódulos bem definidos, similares ao adenoma. Possível penetração de
cápsula e estruturas vizinhas em lesões maiores. Celularidade e características
nucleares são distintas do carcinoma papilar, mas não são de adenomas (invasão
capsular e vascular). Envolvimento de linfonodos não é muito comum.
- Na microscopia, infiltração da cápsula em cogumelo e de vasos. Células formando
folículos, áreas sólidas, oncocíticas, uniformes, bem diferenciadas e coloide.
- A citologia fornece informações importantes no carcinoma folicular, e variantes das
células de Hurthle podem ser observadas. Difícil diferenciação de adenomas,
especialmente em casos microinvasivos, podendo exigir extensiva coleta de amostras
histológicas da interface cápsula-tireoide a fim de excluir invasão capsular e/ou vascular.
❖Clinica: maioria nódulo único, frio. Comprometimento de vasos linfáticos raro. Tendência
a metastização pela corrente sanguínea para pulmão, ossos e fígado. Sobrevida em 10 anos de 50% em
casos amplamente invasivos.
C) Carcinoma medular: derivado de células C (parafoliculares). Produção hormonal de calcitonina. 80% dos
casos esporádicos (em pacientes de 40-50 anos). Formas familiares (30%) mais frequentes em pacientes
jovens (NEM-2, carcinoma medular familial com mutação RET ativadora).
❖Morfologia: nódulos solitários nas formas esporádicas, e múltiplos e bilaterais nas formas familiares.
Lesão firme, infiltrativa, podendo conter áreas de necrose e hemorragia. Células em ninhos, trabéculas
ou folículos e hiperplasia de células C adjacentes. Substância eosinofílica mieloide.
❖Clinica: massa cervical, com compressão (disfagia, rouquidão) Manifestação de síndromes
paraneoplásicas. Prognóstico desfavorável.
D) Carcinoma anaplásico: tumores indiferenciados, agressivos, com mortalidade próxima a 100%. Acomete
pacientes idosos (65 anos).


❖Morfologia: massas invasoras, comprometendo estruturas adjacentes. Maior pleomorfismo, com áreas
fusiformes, células gigantes, pequenas células e focos de carcinoma papilar e folicular.
❖Clinica: crescimento rápido. No momento do diagnóstico, pode apresentar metástases pulmonares.
Sintomas compressivos comuns. Mortalidade de quase 100% em um ano.

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